Vacina contra HPV completa 20 anos: o que as evidências mostram

Duas décadas após a aprovação da primeira vacina contra o HPV, dados de múltiplos países confirmam reduções superiores a 85% na incidência de câncer cervical em populações vacinadas.

Vinte anos de vacinação contra o HPV

Em junho de 2006, a FDA aprovou a primeira vacina contra o papilomavírus humano (HPV). Vinte anos depois, um artigo de revisão publicado na Nature Medicine analisa o impacto acumulado dessa intervenção em escala global — e os dados são contundentes.

O HPV é responsável por praticamente 100% dos casos de câncer de colo do útero, além de contribuir para cânceres de orofaringe, ânus, pênis, vagina e vulva. A cada ano, o câncer cervical mata mais de 340 mil mulheres no mundo, sendo que 90% dessas mortes ocorrem em países de baixa e média renda.

Eficácia comprovada em dados populacionais

Os primeiros ensaios clínicos demonstraram eficácia superior a 95% contra infecções persistentes pelos HPV tipos 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos cânceres cervicais. A vacina nonavalente, disponível desde 2014, cobre nove tipos de HPV e protege contra aproximadamente 90% dos cânceres cervicais.

Mas o dado mais impressionante vem dos registros populacionais. Na Suécia, um estudo com 1,7 milhão de mulheres publicado no New England Journal of Medicine demonstrou redução de 88% no risco de câncer cervical invasivo entre mulheres vacinadas antes dos 17 anos (IRR 0,12; IC 95%: 0,00-0,34).

Na Austrália — primeiro país a implementar programa nacional de vacinação contra HPV em 2007 —, a incidência de câncer cervical em mulheres de 25 a 29 anos caiu de 12,7 para 3,9 por 100 mil entre 2007 e 2023, uma redução de 69%. O país está no caminho para eliminar o câncer cervical como problema de saúde pública até 2035, segundo projeções da The Lancet Public Health.

No Reino Unido, dados do programa nacional de vacinação mostraram redução de 87% nos casos de câncer cervical em mulheres vacinadas aos 12-13 anos, comparadas às coortes não vacinadas.

Impacto além do colo do útero

A vacinação contra HPV também demonstrou efeito na redução de lesões pré-cancerosas e verrugas genitais. Na Austrália, diagnósticos de verrugas genitais em mulheres jovens caíram mais de 90% após a implementação do programa vacinal.

Evidências crescentes sugerem benefício na prevenção de cânceres de orofaringe em homens. Nos Estados Unidos, onde a vacinação masculina foi incluída no calendário em 2011, já se observa tendência de redução na prevalência oral de HPV 16 entre homens vacinados (prevalência de 0,7% vs 1,8% em não vacinados).

O desafio da cobertura global

Apesar das evidências robustas, a cobertura vacinal global permanece desigual. Em 2024, apenas 27% das meninas de 9 a 14 anos no mundo haviam completado o esquema vacinal. Em países de baixa renda, essa proporção era inferior a 5%.

A meta da OMS é alcançar 90% de cobertura vacinal contra HPV em meninas até 2030, como parte da estratégia global de eliminação do câncer cervical. Iniciativas como a Gavi Alliance, que subsidia vacinas para países elegíveis, ampliaram o acesso: mais de 120 países incluíram a vacina HPV em seus programas nacionais de imunização.

O cenário brasileiro

O Brasil incluiu a vacina quadrivalente contra HPV no calendário nacional de vacinação do SUS em 2014, para meninas de 9 a 13 anos. Em 2017, a vacinação foi estendida para meninos de 11 a 14 anos. Em 2023, o Ministério da Saúde adotou o esquema de dose única, alinhado com a recomendação da OMS.

Entretanto, a cobertura vacinal brasileira contra HPV é preocupante. Dados do Programa Nacional de Imunizações indicam que apenas 57% das meninas completaram o esquema vacinal em 2024 — muito abaixo da meta de 80%. Entre meninos, a cobertura é ainda menor: 39%.

A hesitação vacinal, desinformação nas redes sociais e dificuldades logísticas na vacinação escolar são barreiras identificadas. O artigo da Nature Medicine destaca que estratégias de comunicação baseadas em evidências e a vacinação em ambiente escolar são as intervenções mais eficazes para aumentar a cobertura.

Perspectivas para os próximos 20 anos

Vacinas de segunda geração, incluindo formulações termoestáveis que dispensam cadeia de frio e candidatas que cobrem tipos adicionais de HPV, estão em desenvolvimento. Ensaios clínicos de fase III avaliam vacinas que poderiam prevenir até 97% dos cânceres cervicais.

A combinação de vacinação universal com rastreamento otimizado (teste de HPV em substituição ao Papanicolau convencional) pode tornar a eliminação do câncer cervical uma realidade em países que atingirem metas de cobertura — algo impensável há 20 anos.

Para o médico brasileiro, o recado é claro: recomendar ativamente a vacinação contra HPV para adolescentes de ambos os sexos continua sendo uma das intervenções preventivas com maior impacto em saúde pública disponíveis hoje.

Conteúdo educativo e informativo. Não substitui consulta médica profissional.

Fonte: Nature Medicine, maio 2026. DOI: s41591-026-04374-x