Relatório de Resultados da OMS 2025: avanços concretos em saúde global mesmo com cortes orçamentários e transição estratégica

Mortalidade por malária em queda de 15% na África Subsaariana. Tempo de resposta a emergências sanitárias reduzido de 14 para 9 dias. Setenta e dois países com serviços de saúde mental integrados à atenção primária. Os números do Relatório de Resultados da OMS, divulgado em 23 de abril de 2026, desafiam uma narrativa que parecia consolidada: a de que cortes no financiamento global inevitavelmente significam retrocesso nos indicadores de saúde.

O documento chega em um momento crítico. A Organização Mundial da Saúde atravessa simultaneamente uma transição programática — do 13º para o 14º Programa Geral de Trabalho (GPW 14) — e uma crise de financiamento que ameaça a sustentabilidade de suas operações. Mesmo assim, os dados revelam progresso mensurável em áreas que afetam diretamente a prática clínica em países de média e baixa renda, incluindo o Brasil.

O contexto: por que este relatório importa agora

A saúde global vive um paradoxo. De um lado, avanços técnicos sem precedentes — novas vacinas contra malária (RTS,S e R21), protocolos mais eficazes para tuberculose multirresistente, expansão da cobertura de antirretrovirais para HIV. De outro, uma erosão progressiva do financiamento multilateral que coloca em risco a capacidade de converter evidência em ação nos sistemas de saúde mais frágeis do planeta.

O orçamento aprovado da OMS para o biênio 2024–2025 atingiu US$ 6,83 bilhões — o maior da história da organização em termos nominais. Contudo, apenas 18% desse montante provém de contribuições obrigatórias dos 194 Estados-membros. Os 82% restantes dependem de doações voluntárias, frequentemente vinculadas a programas específicos e sujeitas a flutuações políticas. Em 2025, cortes unilaterais de doadores importantes reduziram o orçamento efetivamente disponível, forçando a OMS a priorizar com mais rigor — e a demonstrar resultados com mais transparência.

É nesse contexto que o Relatório de Resultados de 2025 assume relevância estratégica: não se trata apenas de prestar contas, mas de justificar a existência da cooperação técnica internacional em saúde num cenário de crescente ceticismo político.

Malária: redução de 15% na mortalidade com novas diretrizes

O dado mais expressivo do relatório diz respeito à malária. Regiões da África Subsaariana que implementaram as novas diretrizes de tratamento da OMS — incluindo a adoção de terapias combinadas à base de artemisinina de nova geração e a expansão da quimioprevenção sazonal — registraram redução de 15% na mortalidade por Plasmodium falciparum em comparação com 2023.

O número ganha peso quando contextualizado. Em 2022, a malária matou aproximadamente 608 mil pessoas globalmente, sendo 95% dos óbitos concentrados na Região Africana da OMS. Uma redução de 15% na mortalidade nessa região representa dezenas de milhares de vidas preservadas — majoritariamente de crianças menores de cinco anos, que respondem por cerca de 80% dos óbitos por malária no continente.

A quimioprevenção sazonal da malária (SMC), administrada a crianças de 3 a 59 meses em regiões de alta transmissão durante a estação chuvosa, alcançou cobertura de 75% nos países elegíveis em 2025, contra 62% em 2022. A combinação de sulfadoxina-pirimetamina com amodiaquina, administrada em ciclos mensais de três dias, demonstrou eficácia de 75% (IC 95%: 63–83%) na prevenção de episódios clínicos de malária em meta-análise Cochrane atualizada.

Para clínicos brasileiros que atuam na Amazônia Legal — onde a malária por P. vivax e P. falciparum permanece endêmica, com 128 mil casos notificados em 2024 segundo o SIVEP-Malária — as novas diretrizes da OMS trazem implicações práticas na escolha de esquemas terapêuticos e na vigilância de resistência a antimaláricos.

Doenças crônicas não transmissíveis: políticas populacionais com impacto mensurável

O relatório documenta avanços significativos na implementação de políticas populacionais para prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs). Em 2025, 45 países adotaram regulamentações para redução de sódio em alimentos ultraprocessados, e 38 implementaram taxação sobre bebidas açucaradas — um aumento de 40% em relação a 2021.

Essas medidas estruturais foram associadas a uma queda de 8% nos novos diagnósticos de hipertensão arterial em adultos jovens (18–39 anos) nos países participantes — um indicador proxy que sugere redução na exposição populacional a fatores de risco modificáveis. Embora a relação causal direta não possa ser estabelecida sem estudos controlados, a magnitude do efeito é consistente com modelos de simulação publicados no Lancet Global Health que projetavam reduções de 6–12% nos diagnósticos de hipertensão com a combinação dessas políticas (IC 95%: 4,2–14,1%).

As DCNTs respondem por 74% de todas as mortes no mundo (41 milhões de óbitos anuais, segundo estimativas de 2024), sendo a hipertensão arterial o fator de risco modificável com maior impacto na carga global de doença. No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2019) indicaram prevalência de hipertensão autorreferida de 23,9% na população adulta. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017–2018) revelou que ultraprocessados já representavam 18,4% das calorias totais da dieta do brasileiro — percentual que vem crescendo desde a década de 2000.

A experiência dos 45 países que regulamentaram sódio em ultraprocessados oferece evidência relevante para o debate brasileiro sobre rotulagem nutricional frontal e regulação da publicidade de alimentos, atualmente em diferentes estágios de implementação pela Anvisa.

Saúde mental na atenção primária: expansão inédita

Pela primeira vez na história dos relatórios anuais da OMS, a saúde mental recebeu status de área prioritária equivalente às doenças infecciosas. O dado central: 72 países expandiram serviços de saúde mental integrados à atenção primária em 2025, e o número de profissionais de saúde mental em países de baixa renda aumentou 22% em dois anos.

A relevância clínica desse avanço é difícil de exagerar. A lacuna de tratamento para transtornos mentais em países de baixa e média renda supera 75% — ou seja, três em cada quatro pessoas com condições como depressão maior, transtorno de ansiedade generalizada ou esquizofrenia não recebem nenhum tipo de tratamento. A integração de saúde mental na atenção primária é a estratégia recomendada pelo programa mhGAP da OMS desde 2008, mas a implementação havia sido lenta até a pandemia de COVID-19 catalisar a demanda por serviços psicossociais.

No Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) conta com mais de 2.800 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) distribuídos pelo país. Contudo, a cobertura permanece desigual: 71% dos CAPS estão concentrados nas regiões Sudeste e Sul, enquanto o Norte — região com os maiores índices de suicídio entre populações indígenas — apresenta cobertura de apenas 0,3 CAPS por 100 mil habitantes, contra a meta ministerial de 1,0. A experiência dos 72 países que avançaram na integração oferece modelos replicáveis para reduzir essa desigualdade.

Vigilância e resposta a emergências: mais rápido, mais preciso

O sistema de vigilância global da OMS detectou e coordenou resposta a 68 eventos de saúde pública em 2025, incluindo surtos de vírus Marburg na África Oriental e detecção de novas variantes de influenza aviária H5N1 com potencial pandêmico. O dado mais relevante é operacional: o tempo médio entre a detecção do evento e o início da resposta coordenada caiu de 14 dias (média de 2022) para 9 dias em 2025 — uma redução de 36%.

Essa melhoria reflete investimentos no Sistema de Gerenciamento de Eventos (EMS) da OMS, na rede de laboratórios sentinela do Regulamento Sanitário Internacional (RSI) e na expansão da vigilância genômica em países prioritários. A capacidade de sequenciar e compartilhar dados genômicos de patógenos em tempo real — infraestrutura construída durante a resposta à COVID-19 — foi mantida e ampliada para outras ameaças.

Para o sistema de saúde brasileiro, que opera o Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS) em articulação com a rede global da OMS, a redução no tempo de resposta tem implicação direta na capacidade de contenção de surtos importados e na tomada de decisão em salas de situação estaduais e municipais.

Transição estratégica: do GPW 13 ao GPW 14

O GPW 14, aprovado na 77ª Assembleia Mundial da Saúde em maio de 2024, representa uma reorientação programática significativa. Enquanto o GPW 13 (2019–2025) organizava as prioridades em torno das metas dos "três bilhões" — um bilhão a mais de pessoas beneficiadas em cada uma das três áreas prioritárias —, o novo programa enfatiza resultados mensuráveis com impacto direto nos países e prioriza quatro eixos:

  • Sistemas de dados nacionais: fortalecimento da capacidade dos países de monitorar indicadores de saúde em tempo real, com ênfase em registros civis, vigilância de mortalidade e inquéritos populacionais regulares.
  • Saúde mental como eixo transversal: integração de cuidados psicossociais em todos os níveis de atenção, com metas específicas de cobertura para 2028.
  • Preparação para pandemias: consolidação das lições da COVID-19 em protocolos operacionais permanentes, incluindo o controverso Tratado Pandêmico ainda em negociação.
  • Equidade em saúde: redução de disparidades intra e interpaíses como critério de avaliação de todos os programas da OMS.

A transição entre programas gerais de trabalho é sempre um período de vulnerabilidade institucional — prioridades são renegociadas, indicadores são reformulados e equipes são realocadas. O fato de o Relatório de Resultados de 2025 mostrar avanços mensuráveis nesse contexto sugere que a capacidade técnica da OMS resistiu às pressões conjunturais, embora a sustentabilidade de longo prazo dependa de soluções para o modelo de financiamento.

Implicações clínicas e para o sistema de saúde brasileiro

Os dados do relatório da OMS não são abstrações de política internacional — eles se traduzem em decisões clínicas e de gestão no cotidiano do SUS. A redução da mortalidade por malária valida protocolos que já estão sendo incorporados pelo Programa Nacional de Controle da Malária. A expansão da saúde mental na atenção primária oferece benchmarks internacionais para a RAPS. As políticas de redução de sódio e taxação de ultraprocessados fornecem evidência populacional para debates regulatórios em andamento no Brasil.

O SUS, citado no próprio relatório como exemplo de sistema de cobertura universal em países de renda média, possui a infraestrutura institucional para implementar as recomendações do GPW 14 — mais de 48 mil equipes de Saúde da Família, uma rede de vigilância epidemiológica capilarizada e um programa nacional de imunizações com capacidade logística comprovada. O desafio está menos na capacidade técnica e mais na vontade política de sustentar investimentos em saúde pública num cenário de restrição fiscal.

O relatório da OMS reforça uma mensagem que a evidência epidemiológica tem sustentado consistentemente: investimento em prevenção, vigilância e atenção primária gera retornos mensuráveis em indicadores de saúde populacional — mesmo em condições adversas de financiamento.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica profissional.