O que países com resultados obstétricos exemplares fazem diferente?

A mortalidade materna e neonatal permanece inaceitavelmente alta em muitas regiões do mundo. Segundo a OMS, cerca de 287 mil mulheres morrem por ano durante a gravidez ou o parto, e 2,3 milhões de recém-nascidos não sobrevivem ao primeiro mês de vida. Porém, alguns países de baixa e média renda conseguiram reduções notáveis nesses indicadores — e entender como eles fizeram é fundamental para replicar esses avanços.

Um estudo publicado na Nature Medicine em junho de 2026 investigou a qualidade da assistência ao parto prestada por profissionais qualificados em países classificados como "Exemplar" — nações que obtiveram reduções na mortalidade materna e neonatal superiores às esperadas para seu nível socioeconômico.

Metodologia: além da cobertura, a qualidade

Historicamente, a métrica mais utilizada para avaliar o progresso em saúde materna foi a cobertura — ou seja, a proporção de partos assistidos por profissionais de saúde qualificados. Essa abordagem, embora importante, é insuficiente: a mera presença de um profissional não garante que o cuidado prestado seja de qualidade adequada.

O estudo foi além, avaliando indicadores de qualidade do processo assistencial durante o parto. Os pesquisadores analisaram a execução de funções-sinal (signal functions) — intervenções essenciais que salvam vidas, como administração de uterotônicos para prevenção de hemorragia pós-parto, manejo ativo do terceiro período e reanimação neonatal.

Principais achados

Os países exemplares se diferenciaram não apenas pela cobertura de profissionais qualificados, mas pela consistência na execução de práticas baseadas em evidências durante o parto. Entre os achados mais relevantes:

  • Manejo ativo do terceiro período: a administração de ocitocina após o nascimento — medida comprovadamente eficaz na prevenção de hemorragia pós-parto — foi realizada de forma consistente nos países com melhores resultados.
  • Monitorização fetal intraparto: a avaliação regular dos batimentos cardíacos fetais durante o trabalho de parto foi significativamente mais frequente nos países exemplares.
  • Cuidado respeitoso: além das competências técnicas, esses países demonstraram maior adesão a práticas de cuidado respeitoso — incluindo consentimento informado, acompanhamento durante o parto e comunicação adequada com a parturiente.
  • Competência em emergências: profissionais nos países exemplares demonstraram maior preparo para manejar emergências obstétricas como eclâmpsia, hemorragia e distocia de ombro.

A lacuna entre presença e competência

Um dos resultados mais impactantes do estudo é a documentação da lacuna entre "ter um profissional qualificado presente" e "receber cuidado de qualidade". Em vários países não exemplares, apesar de taxas relativamente altas de partos institucionais, a qualidade do cuidado prestado permanecia abaixo do aceitável.

Essa lacuna se manifesta em falhas como: não verificação da pressão arterial durante o trabalho de parto, não administração de uterotônicos profiláticos, e falta de avaliação inicial adequada do recém-nascido. São intervenções simples, de baixo custo e alto impacto — cuja ausência é evitável.

Implicações para o Brasil

O Brasil apresenta um cenário misto. A cobertura de parto institucional é superior a 98%, uma das mais altas do mundo. Porém, a qualidade do cuidado varia enormemente entre regiões, serviços públicos e privados, e zonas urbanas e rurais.

As taxas de cesárea brasileiras — em torno de 56% — estão entre as mais altas do mundo e sugerem que a qualidade da assistência ao parto vaginal pode ser uma área de melhoria prioritária. Programas como a Rede Cegonha e as Boas Práticas de Atenção ao Parto e Nascimento do Ministério da Saúde já incorporam muitos dos princípios identificados no estudo.

A lição central é que investir apenas em cobertura não basta. É necessário garantir que cada profissional presente no parto execute, de forma consistente, as intervenções que comprovadamente reduzem mortalidade.

Perspectivas

O estudo reforça a necessidade de sistemas de monitoramento da qualidade do cuidado intraparto, não apenas da cobertura. Indicadores como a taxa de administração de uterotônicos, a frequência de monitorização fetal e a competência em emergências obstétricas devem fazer parte da rotina de avaliação de serviços de saúde materna.

Fonte: Nature Medicine, junho de 2026. Assessing quality of childbirth care provided by skilled health personnel in Exemplar countries.

Conteúdo educativo e informativo. Não substitui consulta médica profissional.