PREVENT vs SCORE2: maior validação de escores cardiovasculares já realizada
Estudo multinacional publicado na Nature Medicine compara os dois principais escores de risco cardiovascular em uma coorte de 6,4 milhões de indivíduos e revela que nenhum modelo é ideal para todas as populações.
O que está em jogo
A predição de risco cardiovascular é a pedra angular da medicina preventiva moderna. Dois escores disputam a preferência clínica global: o PREVENT (Predicting Risk of cardiovascular EVENTs), da American Heart Association (AHA), lançado em 2023, e o SCORE2, da European Society of Cardiology (ESC), atualizado em 2021. Ambos prometem estimar com precisão o risco de eventos cardiovasculares em dez anos, mas foram desenvolvidos e validados em populações distintas.
O PREVENT inova ao incluir variáveis como taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e hemoglobina glicada (HbA1c), além dos fatores tradicionais. O SCORE2 foi calibrado para quatro regiões de risco na Europa, com versão específica para idosos (SCORE2-OP).
A pergunta que todo cardiologista se faz é: qual dos dois funciona melhor na minha população?
O estudo
Publicado na Nature Medicine em maio de 2026, este é o maior estudo de validação comparativa de escores cardiovasculares já realizado na história da cardiologia preventiva. Foram incluídos 6,4 milhões de indivíduos de múltiplos países e continentes, com dados prospectivos de seguimento para eventos cardiovasculares maiores: infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico e morte cardiovascular.
A escala do estudo é sem precedentes. Para comparação, o escore de Framingham original foi derivado de aproximadamente cinco mil participantes. Ter 6,4 milhões de indivíduos permite avaliar o desempenho dos escores em subgrupos antes impossíveis de analisar: por etnia, faixa etária, comorbidades específicas e regiões geográficas.
Os pesquisadores avaliaram dois parâmetros fundamentais de cada escore:
- Discriminação — capacidade de distinguir quem terá um evento de quem não terá, medida pelo C-statistic (valores acima de 0,75 são considerados bons)
- Calibração — concordância entre o risco predito pelo modelo e o risco efetivamente observado na população real (avaliada por gráficos de calibração e teste de Hosmer-Lemeshow)
Resultados principais
Os achados revelaram diferenças clinicamente relevantes entre os dois modelos, com implicações diretas para a escolha do escore na prática clínica:
O PREVENT apresentou boa discriminação em populações norte-americanas, com C-statistic consistentemente acima de 0,75 na maioria dos subgrupos etários e étnicos. A inclusão de TFGe e HbA1c melhorou a predição em diabéticos e portadores de doença renal crônica. No entanto, a calibração variou significativamente em populações não norte-americanas, com tendência a superestimar o risco em coortes europeias e asiáticas — potencialmente levando a tratamento farmacológico desnecessário.
O SCORE2 mostrou calibração superior em populações europeias, como esperado por seu desenvolvimento nessas coortes. A estratificação por regiões de risco cardiovascular (baixo, moderado, alto, muito alto) funcionou bem para países europeus. Porém, apresentou subestimação do risco em populações com alta prevalência de diabetes tipo 2 e obesidade, como as norte-americanas e latino-americanas — podendo resultar em subdiagnóstico e subtratamento de pacientes que se beneficiariam de estatinas ou anti-hipertensivos.
Nenhum dos dois escores demonstrou desempenho ideal em todas as populações avaliadas, reforçando a necessidade crítica de recalibração regional.
O que muda para o cardiologista brasileiro
Para o médico brasileiro, os resultados são particularmente relevantes e merecem atenção cuidadosa. O Brasil historicamente utilizou o escore de Framingham adaptado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e, mais recentemente, tem incorporado elementos do SCORE2 por influência das diretrizes europeias adotadas em consensos latino-americanos.
Os achados deste estudo sugerem cautela nessa adoção:
- Nenhum escore internacional deve ser aplicado diretamente à população brasileira sem recalibração, dado o perfil epidemiológico único do país
- A miscigenação étnica brasileira, a alta prevalência de hipertensão (32% dos adultos), diabetes (16 milhões de pessoas) e a presença de doenças endêmicas como a doença de Chagas — que causa cardiomiopatia — tornam a recalibração essencial
- O escore PREVENT, ao incluir função renal e controle glicêmico, pode ter vantagem teórica para a população brasileira, mas precisa de validação local
- Iniciativas brasileiras como o ELSA-Brasil (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto), com quinze mil participantes em seis capitais, são fundamentais para desenvolver e validar modelos preditivos adequados à nossa realidade
Implicações práticas para o consultório
Na prática clínica diária, o estudo reforça cinco pontos essenciais que todo cardiologista e clínico geral deveria considerar:
- Não existe escore perfeito — todo modelo de risco é uma aproximação matemática e deve ser interpretado dentro do contexto clínico individual do paciente
- A calibração importa tanto quanto a discriminação — um escore que classifica bem quem é alto risco, mas erra a magnitude desse risco, pode levar tanto a sobretratamento (com efeitos colaterais de estatinas) quanto a subtratamento (com eventos cardiovasculares evitáveis)
- Dados locais são insubstituíveis — a validação multinacional é valiosa, mas a aplicação clínica responsável exige adaptação às características da população que você atende
- Considere múltiplos escores — quando houver discordância entre PREVENT e SCORE2 para um paciente específico, investigue fatores adicionais como escore de cálcio coronariano e histórico familiar detalhado
- Atualize-se constantemente — as diretrizes de prevenção cardiovascular estão em rápida evolução, e ferramentas como o mobileMED facilitam o acesso a calculadoras e protocolos atualizados
Fonte
Nature Medicine, maio de 2026. DOI: s41591-026-04437-z
Conteúdo educativo e informativo. Não substitui consulta médica profissional.