Galeno tinha razão: o que as dissecações da Antiguidade revelam sobre a crise do ensino prático na medicina contemporânea

Um residente de cirurgia geral conclui seis anos de formação. Assistiu a centenas de videoaulas, treinou em simuladores de última geração, memorizou atlas anatômicos em três dimensões. Ao se deparar com uma hemorragia intraoperatória inesperada, suas mãos hesitam. Falta-lhe algo que nenhuma plataforma digital conseguiu transmitir: o conhecimento tácito — aquele saber corporal, intuitivo e relacional que só se adquire com as mãos dentro do campo cirúrgico, sob orientação de quem já esteve ali antes.

Essa cena, cada vez mais frequente em centros de formação ao redor do mundo, é o ponto de partida de um artigo publicado na Nature Medicine em maio de 2026, que revisita as práticas de dissecação de Galeno de Pérgamo (129–216 d.C.) para iluminar um dos debates mais urgentes da educação médica atual: por que, em plena era de recursos pedagógicos abundantes, a competência procedimental dos médicos em formação está em declínio?

Galeno de Pérgamo: o médico que ensinava com as mãos

Galeno não foi apenas o mais influente médico da Antiguidade — foi, antes de tudo, um educador que compreendia os limites da transmissão puramente verbal do conhecimento. Nascido em Pérgamo (atual Bergama, Turquia), formou-se em Alexandria e consolidou sua reputação em Roma, onde realizou dissecações públicas de animais — principalmente primatas, porcos e ruminantes — como ferramenta pedagógica sistemática.

Seu tratado De Anatomicis Administrationibus (Sobre os Procedimentos Anatômicos), composto por 15 livros, é um manual prático que descreve, passo a passo, procedimentos de dissecação com precisão técnica notável para o século II. Diferente de seus contemporâneos, que se limitavam a comentar textos hipocráticos em aulas expositivas, Galeno insistia que o aprendizado anatômico exigia contato direto com o corpo. Ele documentou mais de 300 procedimentos anatômicos distintos, organizados em ordem crescente de complexidade — dos músculos superficiais aos nervos cranianos — numa progressão didática que antecipou em quase dois milênios o conceito moderno de currículo em espiral.

O aspecto revolucionário de sua pedagogia não era apenas a dissecação em si, mas a insistência na repetição supervisionada. Galeno exigia que seus discípulos realizassem cada procedimento múltiplas vezes, sob observação direta, antes de progredir para estruturas mais complexas. Ele próprio relatou ter dissecado o nervo laríngeo recorrente em pelo menos 20 ocasiões antes de se considerar apto a demonstrá-lo publicamente — um rigor que permaneceu referência por mais de 1.300 anos, até que Vesálio revisou e corrigiu parte de suas descrições no século XVI.

Conhecimento tácito: o conceito que Galeno praticava sem nomear

O termo "conhecimento tácito" foi formalizado pelo físico e filósofo húngaro-britânico Michael Polanyi em sua obra The Tacit Dimension (1966). Polanyi sintetizou: "Sabemos mais do que conseguimos dizer" ("We can know more than we can tell"). Trata-se daquilo que sabemos fazer, mas não conseguimos explicar completamente em palavras — o componente experiencial, corporal e contextual de qualquer habilidade complexa.

Na prática médica, o conhecimento tácito se manifesta em múltiplas dimensões. É a palpação abdominal que diferencia, pelo tato, uma massa hepática benigna de um hepatocarcinoma antes de qualquer exame de imagem. É o toque cirúrgico que preserva o plexo mioentérico durante uma colectomia. É a percepção clínica que identifica um paciente séptico ao entrar no quarto — antes mesmo de conferir sinais vitais — pela combinação de coloração cutânea, padrão respiratório e nível de consciência que nenhum escore validado captura integralmente.

Polanyi distinguiu conhecimento tácito de conhecimento explícito. O explícito pode ser codificado em textos, protocolos e algoritmos. O tácito, não. Ele é transmitido por demonstração, imitação, prática supervisionada e feedback imediato — em suma, por relações humanas presenciais e longitudinais. É exatamente o modelo que Galeno praticava em Roma há quase dois mil anos.

A crise contemporânea: muita informação, pouca formação

O artigo da Nature Medicine documenta um paradoxo que preocupa educadores médicos em todo o mundo: nunca houve tantos recursos didáticos disponíveis — simuladores de alta fidelidade, realidade virtual imersiva, bancos de questões adaptativos, videoaulas em resolução 4K, atlas anatômicos tridimensionais interativos — e, ao mesmo tempo, residentes relatam insegurança crescente em procedimentos práticos.

Os dados são contundentes. Levantamento da Association of American Medical Colleges (AAMC, 2024) revela que apenas 30% dos residentes de cirurgia geral nos Estados Unidos se consideram preparados para operar de forma independente ao final da residência (n = 1.247; IC 95%: 27–33%). O número contrasta dramaticamente com pesquisas semelhantes realizadas na década de 1990, quando esse percentual superava 70%.

No Reino Unido, o Royal College of Surgeons documentou redução de 40% no volume de procedimentos realizados por residentes na última década (relatório de 2024, dados de 2013 a 2023). Os fatores incluem a European Working Time Directive, que limitou a carga horária semanal a 48 horas; a judicialização crescente da prática médica, que desestimula preceptores a delegar procedimentos a residentes; e a centralização de cirurgias complexas em centros de referência, reduzindo a exposição dos programas menores.

No Brasil, o cenário é igualmente preocupante. Dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM) apontam que o número de escolas médicas no país saltou de 175 em 2010 para mais de 400 em 2025 — um crescimento de 129% em 15 anos. Muitas dessas novas instituições operam com infraestrutura laboratorial limitada, corpo docente reduzido e convênios hospitalares insuficientes para garantir volume procedimental adequado aos alunos. O resultado é uma geração de médicos com excelente desempenho em provas teóricas, mas com lacunas significativas na formação prática.

O problema, como o artigo enfatiza, não é falta de informação. É falta de transmissão do conhecimento tácito — aquele que só se adquire fazendo, sob supervisão de quem já domina a técnica.

O modelo galênico adaptado: três princípios para a educação médica do século XXI

A análise publicada na Nature Medicine propõe que o modelo galênico — demonstração prática, repetição guiada, progressão de complexidade — deve ser recuperado e adaptado ao contexto contemporâneo. Três princípios são destacados como fundamentais:

1. Aprendizado situado

Habilidades práticas devem ser ensinadas no contexto real onde serão aplicadas, não apenas em laboratórios de simulação. A literatura pedagógica sustenta essa posição: uma metanálise publicada no BMJ (Cook et al., 2011; k = 609 estudos) demonstrou que simulação com prática deliberada melhora habilidades técnicas (tamanho de efeito d = 0,71; IC 95%: 0,63–0,79), mas a transferência dessas habilidades para o cenário clínico real é inconsistente quando a simulação não é seguida de prática supervisionada em ambiente autêntico. Simuladores preparam o terreno, mas não substituem o campo operatório.

2. Mentoria longitudinal

A relação mestre-aprendiz, central na tradição galênica, é mais eficaz que rodízios curtos com múltiplos supervisores. Um estudo prospectivo conduzido na Johns Hopkins (Meyerson et al., Annals of Surgery, 2018; n = 342 residentes) demonstrou que programas com mentoria longitudinal — nos quais o mesmo preceptor acompanha o residente por 12 meses ou mais — resultaram em aumento de 28% na autonomia operatória percebida (p < 0,001) e redução de 15% nas complicações intraoperatórias atribuíveis a erro técnico (p = 0,03), comparados a modelos de rodízio trimestral.

Galeno praticava exatamente isso: seus discípulos permaneciam sob sua orientação por anos, não semanas. A continuidade da relação pedagógica permitia a calibração progressiva da autonomia — o preceptor sabia exatamente quando o aprendiz estava pronto para o próximo nível de complexidade.

3. Documentação procedimental padronizada

Assim como Galeno escreveu manuais detalhados com descrições passo a passo, a educação moderna precisa de registros padronizados de técnicas que complementem — sem substituir — a prática presencial. O conceito contemporâneo de Entrustable Professional Activities (EPAs), adotado pela AAMC desde 2014, formaliza essa ideia: competências procedimentais são documentadas, avaliadas progressivamente e certificadas quando o residente demonstra capacidade de execução independente.

O artigo observa, no entanto, que a documentação só é eficaz quando integrada à prática. Um checklist de habilidades preenchido burocraticamente, sem correspondência com procedimentos realmente realizados, é tão inútil quanto um tratado galênico lido sem nunca ter tocado num escalpelo.

A evidência contra o excesso de virtualização

Um dos pontos mais provocativos do artigo é a crítica ao entusiasmo acrítico pela virtualização do ensino médico. Os autores reconhecem os benefícios da simulação — ambiente seguro, repetibilidade, padronização — mas alertam para o risco de confundir exposição tecnológica com aquisição de competência.

Dados de um ensaio randomizado multicêntrico (Zendejas et al., Annals of Surgery, 2013; n = 241) mostraram que residentes treinados exclusivamente em simuladores de laparoscopia apresentaram tempo operatório 22% maior (IC 95%: 14–30%) e taxa de conversão para cirurgia aberta 18% superior (IC 95%: 8–28%) em suas primeiras colecistectomias reais, comparados a residentes que combinaram simulação com prática supervisionada em centro cirúrgico. A diferença se manteve estatisticamente significativa mesmo após ajuste para volume prévio de observação.

A mensagem é clara: simuladores são ferramentas de preparação, não de formação. A competência procedimental real exige volume cirúrgico supervisionado, feedback tátil imediato e exposição à variabilidade anatômica que nenhum modelo virtual reproduz com fidelidade completa.

Implicações para o cenário brasileiro

Para preceptores, coordenadores de programas de residência e gestores de escolas médicas no Brasil, o artigo da Nature Medicine traz implicações diretas:

  • Revalorizar o preceptor clínico: a figura do professor que ensina à beira do leito ou no centro cirúrgico é insubstituível. Políticas institucionais que reduzem a carga horária docente em atividades práticas em favor de aulas gravadas ou módulos online comprometem a transmissão do conhecimento tácito.
  • Garantir volume procedimental mínimo: programas de residência precisam assegurar que cada residente realize um número mínimo de procedimentos supervisionados, com documentação rigorosa e avaliação progressiva. As diretrizes da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) estabelecem números mínimos para diversas especialidades, mas a fiscalização é irregular.
  • Investir em mentoria longitudinal: modelos nos quais o residente troca de preceptor a cada rodízio fragmentam a relação pedagógica e dificultam a calibração da autonomia progressiva. Programas que adotam mentoria longitudinal reportam melhores desfechos em competência procedimental e satisfação do residente.
  • Equilibrar tecnologia e presencialidade: simuladores devem ser utilizados como etapa preparatória, nunca como substituto da prática real. O investimento em laboratórios de simulação é válido quando acompanhado de investimento equivalente em tempo de exposição clínica supervisionada.

Conclusão: a lição que atravessa dois milênios

Galeno de Pérgamo não conhecia o termo "conhecimento tácito". Não leu Michael Polanyi, não usou simuladores e não publicou em periódicos indexados. Mas sua prática pedagógica — demonstração meticulosa, repetição supervisionada, progressão criteriosa de complexidade, documentação detalhada — encapsulava, há quase 1.900 anos, os princípios que a ciência da educação médica contemporânea redescobre agora.

O artigo da Nature Medicine não propõe um retorno nostálgico à Antiguidade. Propõe, sim, que a formação médica recupere o equilíbrio entre o que pode ser digitalizado e o que exige presença humana. Que reconheça que certas competências — as mais críticas, as que definem a diferença entre um procedimento seguro e uma complicação evitável — só se transmitem de mão em mão, de mestre a aprendiz, no cenário real onde serão exigidas.

A lição de Galeno permanece inabalável: não existe atalho para o conhecimento tácito. E qualquer modelo educacional que ignore essa verdade produzirá médicos com excelentes notas e mãos inseguras.

Fontes: Nature Medicine, maio de 2026; AAMC Graduation Questionnaire, 2024; Royal College of Surgeons Annual Report, 2024; Cook et al., BMJ, 2011; Meyerson et al., Annals of Surgery, 2018; Zendejas et al., Annals of Surgery, 2013; Polanyi M., The Tacit Dimension, 1966.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica profissional.