Big Catch-Up: maior operação de recuperação vacinal da história atinge 100 milhões de doses em 36 países

A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou nesta quinta-feira, 24 de abril de 2026, durante a Semana Mundial de Imunização, que a iniciativa Big Catch-Up ultrapassou a marca de 100 milhões de doses administradas. O programa alcançou aproximadamente 18,3 milhões de crianças em 36 países — incluindo 12,3 milhões que eram classificadas como "dose-zero", ou seja, nunca haviam recebido nenhuma vacina do calendário básico.

O número impressiona não apenas pela escala, mas pela velocidade: em menos de três anos de operação coordenada, a iniciativa conseguiu reverter parte significativa do retrocesso vacinal acumulado entre 2020 e 2023. Os dados colocam o Big Catch-Up como a maior campanha de recuperação de imunização infantil já realizada na história da saúde pública global.

O retrocesso que motivou a ação

A pandemia de COVID-19 provocou uma ruptura sem precedentes nos programas de vacinação infantil em todo o mundo. Estimativas da OMS e do UNICEF indicam que, entre 2019 e 2023, cerca de 67 milhões de crianças deixaram de receber uma ou mais doses de vacinas essenciais do calendário básico. As causas foram múltiplas: interrupção de serviços de saúde, restrições de mobilidade, desvio de recursos humanos e logísticos para o enfrentamento da pandemia e aumento da hesitação vacinal em diversas populações.

Os efeitos foram sentidos de forma desproporcional em países de baixa e média renda. Na África Subsaariana, a cobertura de DTP3 — o indicador-chave que mede se uma criança recebeu as três doses da vacina contra difteria, tétano e coqueluche — caiu para patamares que não se observavam desde 2008. No Sudeste Asiático e em partes da América Latina, a situação foi igualmente grave, com surtos de sarampo e poliomielite reaparecendo em regiões que haviam alcançado a eliminação dessas doenças.

O resultado direto: milhões de crianças ficaram vulneráveis a doenças preveníveis que matam ou incapacitam. A mortalidade por sarampo, por exemplo, voltou a subir globalmente após uma década de declínio consistente.

A resposta: como o Big Catch-Up foi estruturado

Lançado oficialmente durante a Semana Mundial de Imunização de 2023, o Big Catch-Up reuniu um consórcio liderado pela OMS, UNICEF, Gavi (Aliança Global de Vacinas) e a Fundação Bill & Melinda Gates. A operação concentrou esforços em 36 países prioritários, selecionados com base em critérios epidemiológicos: maior número absoluto de crianças não vacinadas, maior queda relativa de cobertura e maior risco de surtos.

A estratégia operacional combinou abordagens complementares:

  • Busca ativa domiciliar: agentes comunitários de saúde foram treinados para identificar e vacinar crianças em comunidades de difícil acesso, incluindo áreas rurais remotas, assentamentos urbanos informais e regiões de conflito.
  • Microplanejamento com dados georreferenciados: equipes utilizaram sistemas de informação geográfica (SIG) para mapear bolsões de baixa cobertura com precisão de nível comunitário, permitindo alocação direcionada de recursos.
  • Integração com atenção primária: em vez de campanhas isoladas, a vacinação foi incorporada aos serviços rotineiros de saúde materno-infantil, aumentando a sustentabilidade da cobertura.
  • Comunicação direcionada contra hesitação vacinal: programas de engajamento comunitário com líderes religiosos, profissionais de saúde locais e plataformas de mídia social foram implementados para combater a desinformação.

As vacinas priorizadas incluíram DTP (difteria, tétano e coqueluche), sarampo, poliomielite, pneumocócica conjugada, rotavírus e, em algumas regiões, febre amarela e hepatite B.

Resultados em números

Os dados divulgados pela OMS revelam avanços concretos em múltiplas frentes. A cobertura global de DTP3 subiu para 84% em 2025, recuperando os patamares anteriores à pandemia. Em 2021, esse indicador havia caído para 81% — o nível mais baixo em uma década.

Na Região Africana da OMS, a cobertura da primeira dose da vacina contra sarampo aumentou de 68% em 2023 para 77% em 2025. O número de casos confirmados de sarampo nas regiões participantes do programa caiu aproximadamente 40% no mesmo período — uma redução que, segundo a OMS, evitou dezenas de milhares de mortes infantis.

Dos 18,3 milhões de crianças alcançadas, 12,3 milhões (67,2%) eram crianças "dose-zero" — a população mais vulnerável e mais difícil de alcançar. Países como Índia, Nigéria, Etiópia, República Democrática do Congo e Indonésia concentraram os maiores volumes absolutos de doses administradas, refletindo tanto o tamanho de suas populações infantis quanto a magnitude do déficit vacinal acumulado.

Desafios que persistem

Apesar da magnitude dos resultados, a OMS enfatiza que o trabalho está longe de concluído. Mesmo após o Big Catch-Up, estima-se que 14,5 milhões de crianças em todo o mundo ainda sejam classificadas como dose-zero. Essas crianças vivem predominantemente em contextos de extrema vulnerabilidade: zonas de conflito armado (como Iêmen, Sudão e norte de Moçambique), comunidades nômades e pastoris na região do Sahel, e áreas com infraestrutura de saúde destruída ou inexistente.

A hesitação vacinal representa outro obstáculo crescente. Pesquisas conduzidas pelo UNICEF em 2025 mostraram que até 25% dos cuidadores em determinados países relataram preocupações sobre a segurança das vacinas — um aumento de 8 pontos percentuais em relação a 2019. A desinformação disseminada em redes sociais continua sendo o principal motor desse fenômeno, exigindo estratégias de comunicação cada vez mais sofisticadas e culturalmente adaptadas.

A sustentabilidade financeira também preocupa. O Big Catch-Up dependeu fortemente de financiamento extraordinário da Gavi e de doadores bilaterais. Com a transição de vários países de renda média para fora da elegibilidade ao suporte da Gavi, garantir a continuidade do financiamento para imunização de rotina será essencial para evitar novos retrocessos.

Implicações para o Brasil

Embora não integre a lista dos 36 países prioritários do Big Catch-Up, o Brasil enfrenta desafios semelhantes. Dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI) mostram que a cobertura de DTP caiu de 96% em 2015 para aproximadamente 75% em 2021 — uma queda de 21 pontos percentuais em seis anos. A recuperação tem sido gradual: em 2024, a cobertura nacional de DTP atingiu 85%, ainda aquém da meta de 95% preconizada pelo Ministério da Saúde.

O sarampo é um caso emblemático. O Brasil perdeu o certificado de eliminação do sarampo em 2019, após surtos sustentados em Roraima, Amazonas e São Paulo. Dados parciais de 2025 indicam que a cobertura da tríplice viral (SCR) em crianças de 1 ano ficou em torno de 87% — ainda insuficiente para manter a eliminação, que exige cobertura sustentada acima de 95%.

A experiência do Big Catch-Up oferece lições diretamente aplicáveis ao contexto brasileiro. A busca ativa domiciliar, o microplanejamento baseado em dados locais e a integração da vacinação com outros serviços de atenção primária são estratégias que o SUS tem capacidade institucional para implementar em larga escala. O Programa Saúde da Família, com seus mais de 48 mil equipes distribuídas pelo território nacional, representa uma infraestrutura privilegiada para essa finalidade.

Próximos passos da iniciativa global

A OMS sinalizou que a próxima fase do Big Catch-Up incluirá a expansão da vacinação contra HPV em adolescentes — especialmente meninas de 9 a 14 anos — e o fortalecimento da cadeia de frio em regiões tropicais, onde as altas temperaturas comprometem a estabilidade de vacinas termossensíveis.

O objetivo de longo prazo está alinhado à Agenda de Imunização 2030 (IA2030): atingir cobertura de 90% para todas as vacinas do calendário básico infantil até o final da década, com não mais do que 10% de diferença entre os distritos com maior e menor cobertura dentro de cada país.

Para que essa meta se concretize, será necessário não apenas manter o ritmo de vacinação de recuperação, mas fortalecer os sistemas de imunização de rotina — o verdadeiro alicerce da proteção coletiva contra doenças preveníveis.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica profissional.