ADA 2026: retatrutide e berobenatide trazem dados que redesenham o tratamento da obesidade
O congresso anual da American Diabetes Association, realizado em New Orleans em junho de 2026, apresentou resultados que podem alterar de forma concreta o manejo farmacológico da obesidade nos próximos anos. Duas moléculas ocuparam o centro do palco: o retatrutide, triplo agonista da Eli Lilly com dados de segurança ampliados, e o berobenatide, fármaco de administração mensal adquirido pela Pfizer. Para o médico brasileiro que acompanha pacientes com obesidade, compreender o que esses dados significam — e o que ainda falta — é essencial.
Retatrutide: o que o triplo agonismo acrescenta
O retatrutide é uma molécula sintética que atua simultaneamente em três receptores hormonais: GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1), GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) e glucagon. Esse triplo mecanismo lhe rendeu o apelido de "Triple G" na comunidade científica e o diferencia das terapias já disponíveis. Enquanto a semaglutida (Wegovy/Ozempic) atua exclusivamente no receptor de GLP-1 e a tirzepatida (Mounjaro/Zepbound) combina ação em GLP-1 e GIP, o retatrutide adiciona o componente glucagon, que potencializa o gasto energético basal e a oxidação de gordura hepática.
Os dados de fase 2 do retatrutide, publicados por Jastreboff et al. no New England Journal of Medicine em 2023, já haviam causado impacto expressivo. O estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo incluiu 338 participantes adultos com IMC ≥ 30 kg/m² (ou ≥ 27 kg/m² com pelo menos uma comorbidade). Na dose mais alta testada (12 mg semanal), a perda de peso média atingiu 24,2% do peso corporal em 48 semanas (IC 95%: −25,8% a −22,7%), resultado superior ao observado com qualquer agonista incretínico em monoterapia até aquele momento. Mesmo nas doses intermediárias de 4 mg e 8 mg, as reduções foram clinicamente relevantes: 17,5% e 22,8%, respectivamente.
ADA 2026: segurança em populações ampliadas
Os dados apresentados no ADA 2026 focaram no perfil de segurança e tolerabilidade do retatrutide em coortes maiores e mais diversas, etapa fundamental para a submissão regulatória ao FDA e à EMA. A Eli Lilly detalhou análises de segurança provenientes dos estudos de fase 3 em andamento, que incluem milhares de participantes com diferentes perfis metabólicos, faixas etárias e comorbidades cardiovasculares.
O perfil de eventos adversos permaneceu consistente com o já documentado na fase 2. Os efeitos colaterais mais frequentes continuam sendo gastrointestinais: náusea (reportada em aproximadamente 25% a 45% dos participantes, conforme a dose), diarreia e vômitos. A maioria desses eventos foi classificada como de intensidade leve a moderada e tendeu a diminuir ao longo das semanas com o esquema de escalonamento gradual de dose. Os eventos adversos graves foram incomuns e não houve sinais de segurança inesperados nas análises preliminares apresentadas.
Um ponto de atenção clínica relevante é o efeito do componente glucagon sobre a glicemia de jejum em pacientes não diabéticos. Os dados de fase 2 mostraram elevações discretas e transitórias da glicemia de jejum nas primeiras semanas de tratamento, compensadas posteriormente pela perda de peso e pela melhora da sensibilidade à insulina. No ADA 2026, os investigadores confirmaram que esse padrão se manteve nas coortes ampliadas, sem casos de hiperglicemia clinicamente significativa em participantes sem diabetes tipo 2.
Outro dado relevante apresentado em New Orleans diz respeito à gordura hepática. O componente glucagon do retatrutide parece promover redução substancial do conteúdo de gordura intra-hepática, um achado com implicações diretas para pacientes com esteatose hepática associada a disfunção metabólica (MASLD). Nos dados de fase 2, a redução média da gordura hepática chegou a 81% na dose de 12 mg, medida por ressonância magnética — resultado sem paralelo entre os fármacos antiobesidade em desenvolvimento.
Berobenatide: o fármaco mensal da Pfizer
A segunda molécula de destaque no ADA 2026 foi o berobenatide, um agonista do receptor de GLP-1 de longa duração desenvolvido originalmente pela biotecnológica Metsera e adquirido pela Pfizer. O grande diferencial do berobenatide é sua meia-vida plasmática excepcionalmente longa, que permite administração por injeção subcutânea uma vez por mês — em contraste com o esquema semanal exigido pela semaglutida e pela tirzepatida.
Os resultados detalhados de um estudo de fase intermediária (fase 1b/2) foram apresentados em New Orleans. A molécula demonstrou manutenção de concentrações plasmáticas dentro da faixa terapêutica ao longo de quatro semanas após uma única injeção, com perda de peso dose-dependente e clinicamente significativa ao longo do período de tratamento. O perfil farmacocinético favorável suporta a hipótese de que uma administração mensal pode ser suficiente para manter o efeito terapêutico contínuo.
Os eventos adversos foram predominantemente gastrointestinais — náusea e vômitos —, consistentes com a classe dos agonistas de GLP-1, com intensidade predominantemente leve a moderada. A taxa de descontinuação por eventos adversos foi considerada aceitável pelos investigadores.
Por que a posologia mensal importa
A adesão ao tratamento é um dos maiores gargalos no manejo crônico da obesidade. Dados de estudos de mundo real indicam que até 50% dos pacientes em uso de medicações injetáveis semanais descontinuam o tratamento no primeiro ano, frequentemente por fadiga do esquema de injeções, esquecimento ou dificuldade logística. Um fármaco com posologia mensal reduziria a carga de injeções de 52 para 12 por ano — uma simplificação com potencial impacto direto sobre a persistência terapêutica.
Para o sistema de saúde brasileiro, onde o acesso a consultas de seguimento e a dispensação de medicamentos especializados já são desafios conhecidos, um esquema mensal poderia facilitar o acompanhamento e reduzir barreiras de acesso. No entanto, é importante ressaltar que o berobenatide ainda está em fases iniciais de desenvolvimento clínico e que dados de eficácia comparativa com as terapias já aprovadas ainda não estão disponíveis.
Contexto competitivo: o panorama de 2026
O mercado de fármacos antiobesidade vive sua fase mais dinâmica. A semaglutida (Wegovy) e a tirzepatida (Zepbound) dominam o cenário atual com perdas de peso de aproximadamente 15% a 20% em ensaios pivotais. O retatrutide, com potencial de superar esses valores, e o berobenatide, com o diferencial da posologia mensal, representam a próxima geração de terapias.
Outras moléculas também avançam: o survodutide (agonista duplo GLP-1/glucagon da Boehringer Ingelheim), o orforglipron (agonista oral de GLP-1 da Eli Lilly) e o amicretina (agonista duplo GLP-1/amilina da Novo Nordisk) compõem um pipeline robusto que pode oferecer ao clínico um arsenal terapêutico diversificado nos próximos três a cinco anos.
Implicações para a prática clínica no Brasil
Para o médico brasileiro que acompanha pacientes com obesidade, os dados do ADA 2026 trazem mensagens práticas:
- Eficácia crescente: O triplo agonismo do retatrutide pode oferecer perdas de peso superiores a 20% em monoterapia, ampliando as opções para pacientes que não atingem metas terapêuticas com as terapias atuais.
- Conveniência como fator terapêutico: A administração mensal do berobenatide, se confirmada em fase 3, pode ser decisiva para pacientes com baixa adesão a esquemas semanais.
- Segurança requer vigilância contínua: Os dados ampliados do retatrutide são tranquilizadores, mas a monitorização de segurança em longo prazo — especialmente em relação aos efeitos do componente glucagon — permanece essencial.
- Regulamentação no Brasil: Ambas as moléculas ainda não possuem registro na Anvisa. A chegada ao mercado brasileiro dependerá dos resultados de fase 3, da submissão regulatória e dos processos de avaliação nacionais.
Conclusão
O ADA 2026 reforçou que o tratamento farmacológico da obesidade está em transformação acelerada. O retatrutide amplia o horizonte de eficácia com seu mecanismo triplo, enquanto o berobenatide propõe uma mudança de paradigma na conveniência posológica. Ambas as moléculas ainda percorrem o caminho regulatório, mas os dados apresentados em New Orleans sinalizam que o arsenal terapêutico contra a obesidade será substancialmente diferente nos próximos anos. Cabe ao clínico acompanhar essa evolução com rigor científico, avaliando criticamente cada nova evidência antes de incorporá-la à prática.
Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica profissional.
Fontes: STAT News; Jastreboff AM et al., N Engl J Med 2023; 389:514-526; ADA 2026 — American Diabetes Association 86th Scientific Sessions, New Orleans.